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16/05/2019 - Noticias
Experimento quântico sugere que não existe realidade objetiva...
por veja.abril / Adaptação de PY4SM - Marcus

 

 


Os físicos há muito suspeitam que a mecânica quântica permite que dois observadores experimentem realidades diferentes e conflitantes. Agora eles realizaram o primeiro experimento que prova isso.

Um experimento quântico sugere que não existe realidade objetiva

Em 1961, o físico ganhador do Prêmio Nobel, Eugene Wigner, delineou um experimento mental que demonstrou um dos paradoxos menos conhecidos da mecânica quântica. O experimento mostra como a natureza estranha do universo permite que dois observadores – digamos, o amigo de Wigner e Wigner – vivenciem diferentes realidades.

Desde então, os físicos usaram o experimento mental chamado “Wigner’s Friend” (“Amigo de Wigner”) para explorar a natureza da medição e discutir se os fatos objetivos podem existir. Isso é importante porque os cientistas realizam experimentos para estabelecer fatos objetivos. Mas se eles experimentam realidades diferentes, o argumento diz, como podem concordar sobre o que esses fatos seriam?

Isso forneceu alguma informação interessante para a conversa depois do jantar, mas o experimento mental de Wigner nunca foi mais do que isso – apenas uma experiência de pensamento.

No entanto, no ano passado, os físicos notaram que os recentes avanços nas tecnologias quânticas tornaram possível reproduzir o teste do “Amigo de Wigner” em um experimento real. Em outras palavras, deve ser possível criar realidades diferentes e compará-las no laboratório para descobrir se elas podem ser reconciliadas.

E hoje, Massimiliano Proietti, da Universidade Heriot-Watt, em Edimburgo, na Escócia, e alguns colegas dizem que realizaram esse experimento pela primeira vez: criaram realidades diferentes e as compararam. A conclusão deles é que Wigner estava certo – essas realidades podem se tornar irreconciliáveis, de modo que é impossível chegar a um acordo sobre fatos objetivos sobre um experimento.

O experimento mental original de Wigner é direto em princípio. Começa com um único fóton polarizado que, quando medido, pode ter uma polarização horizontal ou uma polarização vertical. Mas antes da medição, de acordo com as leis da mecânica quântica, o fóton existe em ambos os estados de polarização ao mesmo tempo – uma, assim chamada, superposição.

Wigner imaginou um amigo em um laboratório diferente medindo o estado desse fóton e armazenando o resultado, enquanto Wigner observava de longe. Wigner não tem informações sobre a medida de seu amigo e é forçado a presumir que o fóton e a medição estão em uma superposição de todos os resultados possíveis do experimento.

Wigner pode até realizar um experimento para determinar se essa superposição existe ou não. Este é um tipo de experimento de interferência mostrando que o fóton e a medição estão de fato em uma superposição.

Do ponto de vista de Wigner, isso é um ‘fato’ – a superposição existe. E este fato sugere que uma medição não pode ter ocorrido.

Mas isso está em contraste gritante com o ponto de vista do amigo, que de fato mediu a polarização do fóton e a registrou. O amigo pode até chamar Wigner e dizer que a medição foi feita (desde que o resultado não seja revelado).

Então as duas realidades estão em conflito uma com a outra. Ïsso põe em dúvida a situação objetiva dos fatos estabelecidos pelos dois observadores”, dizem Proietti e colegas.

Essa é a teoria, mas no ano passado, Caslav Brukner, da Universidade de Viena, na Áustria, inventou uma maneira de recriar o experimento Wigner’s Friend no laboratório, por meio de técnicas que envolvem o entrelaçamento de muitas partículas ao mesmo tempo.

O avanço que Proietti e colegas fizeram é levar isso a cabo. “Em um experimento de 6-fótons de última geração, percebemos esse cenário aumentado de ‘Amigos de Wigner'”, dizem eles.

Eles usam esses seis fótons emaranhados para criar duas realidades alternativas – uma representando Wigner e outra representando o amigo de Wigner. O amigo de Wigner mede a polarização de um fóton e armazena o resultado. Wigner então realiza uma medição de interferência para determinar se a medição e o fóton estão em uma superposição.

O experimento produz um resultado inequívoco. Acontece que ambas as realidades podem coexistir, embora produzam resultados irreconciliáveis, exatamente como Wigner previu.

Isso levanta algumas questões fascinantes que estão forçando os físicos a reconsiderar a natureza da realidade.

A ideia de que os observadores podem finalmente reconciliar suas medições de algum tipo de realidade fundamental é baseada em várias suposições. A primeira é que fatos universais realmente existem e que observadores podem concordar sobre eles.

Mas existem outras suposições também. Uma é que os observadores têm a liberdade de fazer as observações que quiserem. E outra é que as escolhas que um observador faz não influenciam as escolhas que outros observadores fazem – uma suposição que os físicos chamam de ‘localidade’.

Se existe uma realidade objetiva com a qual todos podem concordar, então todas essas suposições são válidas.

Mas o resultado de Proietti e colegas sugere que a realidade objetiva não existe. Em outras palavras, o experimento sugere que uma ou mais das suposições – a ideia de que há uma realidade com a qual podemos concordar, a ideia de que temos liberdade de escolha ou a ideia de localidade – devem estar erradas.

Naturalmente, há outra saída para aqueles que se apegam à visão convencional da realidade. Isto é que existe alguma outra lacuna que os experimentadores negligenciaram. De fato, os físicos tentaram fechar brechas em experimentos semelhantes durante anos, embora admitam que talvez nunca seja possível fechar todas elas.

No entanto, o trabalho tem importantes implicações para o trabalho dos cientistas. “O método científico baseia-se em fatos estabelecidos através de medições repetidas e acordados universalmente, independentemente de quem os observou”, dizem Proietti e colegas. E no entanto, no mesmo artigo, eles minam essa ideia, talvez fatalmente.

O próximo passo é ir além: construir experimentos criando realidades alternativas cada vez mais bizarras, as quais não podem ser reconciliadas. Para onde isso vai nos levar, ninguém sabe. Mas Wigner e seu amigo certamente não ficariam surpresos.

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